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Os livros de Afonso Cabral, Francisca Cortesão, Inês Sousa, Isabel Minhós Martins e Sérgio Nascimento

Há novos livros na Biblioteca do Público do LU.CA - Teatro Luís de Camões

Os artistas do concerto Mais Alto! escolheram vários livros que orbitam à volta do espetáculo.

 

COMBIEN DE TERRE FAUT-IL À UN HOMME?, de Annelise Heurtier e Raphael Urwiller, Éditions Thierry Magnier

 

Este é um livro em língua francesa mas, mesmo que não saibamos francês, vale a pena folheá-lo só para descobrir as suas ilustrações: que são mesmo incríveis. A tradução do título poderá ser qualquer coisa como: De quanta terra precisa um homem?.  A história é inspirada num conto do escritor Tolstoi, um dos gigantes da literatura russa e leva-nos a pensar em ambição, depois em ganância e, finalmente, em loucura.

 

O livro conta-nos a história de um camponês chamado Pacôme que vive com a mulher e três filhos na região oeste da Sibéria. Não é propriamente rico, mas nada lhe falta. Nem a ele nem à família. Apesar disso, Pacôme põe-se a pensar que se tivesse mais terras, poderia ser mais feliz. Então, seguindo os conselhos de um comerciante de passagem, faz-se à estrada, a caminho da região dos Bashkirs, onde a terra é muito fértil e barata (os Bashkirs existem mesmo e vivem numa região próxima das montanhas dos Urais). Quando chega ao seu destino, o chefe do acampamento propõe a Pacôme um negócio que lhe parece inacreditável: Pacôme pode vir a tornar-se dono de toda a terra por onde caminhar durante esse dia. A única condição é que tem de conseguir regressar ao ponto de partida antes que o sol se ponha. Pacôme põe-se a andar, cada vez mais entusiasmado com as riquezas que vai encontrando. Porém, a sua ambição vai pregar-lhe uma partida. Por tudo querer (tudo, tudo, mesmo tudo), Pacôme não consegue parar de caminhar. E como não consegue parar de caminhar, não consegue regressar a tempo. Quando chega ao acampamento cai, exausto, no chão. E é então que o chefe lhe diz: essa terra que o teu corpo ocupa, essa é a terra que será tua.

 

Os motores que fazem o mundo funcionar, o modo como a nossa sociedade está hoje organizada e até a forma como somos educados alimentam-se deste tipo de combustível: da sede de ter mais, ganhar mais e, quase sempre, explorar mais para acumular mais riqueza. Algumas das canções deste Mais Alto! também nos podem levar a pensar sobre estes assuntos. Estejam atentos!

 

A GRANDE QUESTÃO, de Wolf Erlbruch, edição Bruáa

 

Gostamos muito deste livro! Tem uma ideia muito simples e leva-nos a pensar em coisas complexas, neste caso, no sentido da vida. O livro não nos diz logo diretamente qual é esta “grande questão” de que fala o título mas, à medida que as respostas vão desfilando pelas páginas, começamos a perceber qual é afinal esta pergunta. E a pergunta pode ser qualquer coisa como: “O que é que andamos aqui a fazer, afinal?” ou “O que é que me move nesta vida?” ou ”Porque é que gosto tanto de viver?” ou ainda “O que é para mim mais importante?”.

 

É claro que o que nos move ou aquilo que é para nós mais importante pode mudar, de acordo com a nossa idade ou com a fase da vida que atravessamos. Ou seja, a resposta a esta pergunta pode não ser sempre é igual. Mesmo assim é bom que esta “grande questão” esteja, de quando em quando, presente nas nossas cabeças porque pode funcionar como uma espécie de mapa que nos mostra o caminho. Mesmo quando estamos distraídos, perdidos, mesmo quando não estamos a pensar bem – às vezes acontece – tentar responder a esta pergunta pode ser uma forma de voltarmos a encontrar a direção. Só sabendo a direção podemos então cantar mais alto, com toda a força!

 

(Convém lembrar que muitas músicas também nos ajudam a cantar melhor os momentos em que nos sentimos sós, perdidos, tristes. Os momentos em que não temos reposta para esta grande questão.)

 

13 ANOS COM MAFALDA, de Quino, edição D. Quixote

 

Na verdade a Mafalda (a personagem) já fez 50 anos. No entanto esta edição comemorativa antiga tinha que estar presente, pois fazia parte das prateleiras de alguns de nós. Além disso, a ideia de uma Mafaldinha adolescente – com 13 anos, a idade celebrada nesta edição – agrada-nos muito.

Então: a Mafalda foi criada nos anos 60, na Argentina, por um ilustrador chamado Quino. Podemos dizer que é uma menina fora do comum para a sua idade, mas temos fé de que hoje já se encontrem muitas outras Mafaldinhas por aí, pois o mundo precisa de Mafaldas (e Calvins, claro!).

 

Para quem não a conhece, a Mafalda é irreverente, inconformada com o estado do mundo, não lhe agrada a China comunista, detesta o fascismo e, por favor, não lhe ponham à frente uma malga de sopa, porque ela simplesmente odeia todo o tipo de caldinhos! A Mafalda faz perguntas difíceis aos pais, questiona a vida de dona de casa da mãe, crítica as rotinas da família, abomina as guerras, a hipocrisia de alguns políticos. Se a convidássemos para escolher uma música para este concerto não temos dúvida de que escolheria uma canção dos Beatles, a sua banda de eleição.  E se fizesse parte da plateia, temos a certeza de que se juntaria a todos nós, a cantar a plenos pulmões algumas das canções que aqui vamos ouvir.

 

 

OS FIGOS SÃO PARA QUEM PASSA, de João Gomes Abreu e Bernardo P Carvalho, edição Planeta Tangerina

 

Este livro conta a história de um urso que adora figos. Um dia, ao passar por uma figueira, descobre entre a folhagem um figo ainda verde, mas que promete sumo e sabor. O que faz o urso? Senta-se à espera que o figo amadureça, claro. A partir desse momento, o momento em que se torna guardião do figo, o urso sente-se seu dono e nada o fará distrair do seu objetivo (o objetivo é comer o figo maduro, claro).

 

É óbvio que, como em todas as boas histórias, também nesta acontecem muitas coisas inesperadas. E é claro que, como em todas as boas histórias, esta lança também perguntas de que não estávamos à espera. Algumas delas são: a quem pertencem os figos afinal? A quem os cultiva? A quem mais gosta de figos? A quem é mais rápido a trepar às figueiras? A quem os guarda dia e noite (como este pobre e esfomeado urso)? A quem tem mais fome? A quem, a quem? Muitas vezes, ao longo da nossa História, as pessoas fizeram perguntas como esta. Em vez de figos, as perguntas falavam de outras coisas (terra, dinheiro, alimentos, etc). O problema da distribuição das coisas— isto é, o problema da distribuição da riqueza — sempre fez parte dos nossos pensamentos e preocupações.

 

A nossa sede de justiça também tem a ver com figos! Algumas das canções que aqui vamos cantar também falam dessa sede. Adoramos esta história porque tem muito humor e aquela pitada de suspense que nos faz querer virar a página muito depressa.

 

ERA UMA VEZ (E MUITAS OUTRAS SERÃO), de Johanna Schaible, edição Planeta Tangerina

 

Este é um livro muito, muito especial. Traz o passado lá dentro (desde o tempo antes dos dinossauros!) e traz também o futuro (em forma de perguntas). Foi criado por uma artista suíça que fez dele uma verdadeira obra de arte, a

começar pelo formato que é totalmente fora do comum: tal como o tempo, também o formato estica e encolhe (e não vamos revelar mais, porque é giro descobrirem enquanto folheiam).

 

Mas o que é que este livro tem a ver com este concerto? Ora, para este concerto escolhemos algumas canções que, ao longo dos tempos, fomos cantando para exprimirmos os nossos projetos, desejos, pedidos, protestos. São canções de ontem, de hoje e de amanhã. Todo esse material que está dentro das canções nasceu nalgum lugar: por um lado, veio de trás, de todo o passado que já partilhamos juntos enquanto Humanidade. Por outro, vem também dessa ideia de futuro que carregamos sempre dentro das nossas cabeças. Talvez consigamos explicar ainda melhor: se isto fosse uma caminhada, podemos dizer que já caminhámos muito todos juntos. Nem sempre correu tudo bem, houve imensas contrariedades pelo caminho, obstáculos terríveis, mas fomos sempre andando, tentando que o mundo fosse um lugar melhor para todos. E, apesar de ainda haver tanto caminho para fazer (ui, tanto, tanto!), queremos acreditar que temos conseguido alguns progressos*.

Então, se isto fosse uma caminhada, estaremos inevitavelmente – ou seja, sem que o controlemos – todos a caminho do futuro. E o caminho que seguimos na direção desse futuro encontra-se também nas canções que cantamos agora. Mais uma pista: se queres saber como será o futuro, está atento às canções mais ouvidas, mais cantadas, mais amadas.

 

*e em algumas áreas alguns retrocessos, claro.