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O Teatro

História

Fachada do LU.CA -Teatro Luís de Camões com as portas fechadas

Na sua relativa simplicidade de sala de espectáculos de bairro, o Teatro Luís de Camões abre a fachada principal, modesta composição neoclassicizante, de um piso, para a calçada da Ajuda, nºs 76 a 80, sensivelmente a meio do quarteirão entre as travessas das Zebras e a do Comendador. O pequeno alçado integra três vãos de porta encimados por óculos ovalados, guarnecidos de cantaria, enquadrados por pilastras de massa, e é rematado por cornija e platibanda onde se erguem estátuas-acrotério, de faiança não vidrada: duas figuras de corpo inteiro nas laterais, talvez a Tragédia e a Comédia, e três bustos ao centro.

 

O edifício ocupa um lote rectangular, com cerca de 13 metros de frente por 36 metros de profundidade, e é constituído por uma única sala de espectáculos, antecedida de um minúsculo átrio. A sala é “à italiana”, com plateia e frisas laterais, ligeiramente mais altas, delimitadas por um porticado de madeira que sustenta o piso superior, em U, onde se abrem os camarotes e a tribuna. Varandins de ferro forjado com elementos fundidos protegem tanto camarotes como frisas.

 

O tecto é pintado, destacando-se, ao centro, a representação da musa Tália, de túnica esvoaçante e de máscara na mão, enquadrada por duas composições simétricas representando panóplias de instrumentos musicais (lira, flauta…) laureadas, que remetem simbolicamente para as demais musas de outras artes cénicas.

 

Sabe-se ainda que a espiga do “panno para o teatro Luiz de Camões que foi na verdade uma boa alhada” foi pintada por Columbano (1), mas deste pano de cena original perdeu-se o rasto.

 

O Teatro Luís de Camões foi construído sobre estruturas remanescentes do Teatro de Belém, mandado construir pelo rei D. João V antes do terramoto de 1755(2).

A correspondência que Monsenhor Filippo Acciaiuoli, Núncio Apostólico em Portugal, trocou com o secretário do Papa, entre outros, entre 1754 e 1761, ano em que foi expulso do país, revela o funcionamento desse teatro em que actuaram companhias de Portugal e Itália. Nele “declamaram os melhores cómicos italianos, dançaram os melhores bailarinos e cantaram os melhores cantores (…)”(3).

 

Embora a documentação não forneça elementos sobre a arquitectura do teatro, numa “Planta do Real Palácio e Quinta de Belém levantada pelo capitão engenheiro J. A. de Abreu em 1834 [indica-se] o celeiro do palácio no local onde antes houve um teatro, assinalado pelos parênteses. O lote corresponde exactamente ao que 45 anos mais tarde acolherá o Teatro Luís de Camões” (4). A visita in situ antes dos trabalhos de renovação do edifício permitiu aos investigadores José Camões e Paulo Roberto Masseran “observar se havia sinais que pudessem apontar para uma construção setecentista”, caso do desenho da fachada (embora a cantaria utilizada para guarnecer os vãos da fachada seja de um calcário amarelado o que, na opinião do autor desta súmula, remeta para uma pedra explorada na segunda metade de Oitocentos), e, no “interior, alguns elementos pareciam indicar um edifício teatral anterior ao século XIX: uma escadaria central de acesso logo à entrada principal, a forma rectangular da sala de espectáculos e a boca de cena de feições barrocas, formando um pequeno proscénio entre o pano de boca e o limite da plateia, [e,] inequívocas do século XVIII são as aberturas no tecto para a recolha dos lustres ou outros suportes de iluminação, dispostas em suas laterais mais longas, sendo quatro em cada lado” (5).

 

O teatro oitocentista foi construído por iniciativa de João da Cunha Açúcar, que era proprietário de uma drogaria na rua da Junqueira. Segundo a imprensa da época, o teatro realizou a sua festa de inauguração a 8 de junho de 1880, com o descerramento de uma estátua do poeta Luís de Camões, a que se seguiu “um bodo a 55 pobres”. No dia 10, às 20:30 horas teve “logar a primeira recita com a representação da scena dramática de Casimiro d’Abreu, Camões e o Jau e das comedias Condessa de Marsay e sogra e contra sogra”(6), pela companhia Soares(7). Tais iniciativas inseriram-se no âmbito das comemorações do terceiro centenário da morte do poeta, a 10 de junho de 1580, data evocada nas bandeiras das portas laterais.

 

Em 1892 passou a propriedade para Joaquim Maria Nunes, que tinha uma estância de madeiras na calçada (8), cujas iniciais de ferro forjado, formam o monograma envolvido por coroa de ferro fundido, inscrita na bandeira da porta com o nº 78.

 

Sem grande sucesso o teatro acabaria por estar uns anos encerrado, até que o Belém-Club, sociedade recreativa fundada em 2 de março de 1899, arrenda o edifício por escritura celebrada em 6 de janeiro de 1911, para aí instalar a sua sede. Este arrendatário pede autorização do proprietário, por carta de 18 de março de 1924, para obras de reparação profundas, “dos telhados da parte ocupada pelos camarins, constando de reconstrução da parte em ruína, substituição dos tabiques de madeira das divisões e distribuição mais adequada das mesmas. As obras começaram pela demolição do telhado e paredes traseiras da propriedade”, mas em 1929 não estavam ainda concluídas pois o proprietário vinha sendo sucessivamente intimado, desde 1927, pelos serviços municipais competentes, a proceder às necessárias obras de conservação. O edifício encontrava-se então na posse de Amélia Peyssoneau Nunes, viúva de Joaquim Maria Nunes, que foi alegando não poder avançar com as mesmas enquanto o inquilino não reconstruísse a parede tardoz e a cobertura. A direcção do Belém-Club acabou por pedir licença para avançar com as obras que, para além do telhado, “num estado deplorável, englobaram o concerto no vigamento da fachada principal que ameaça[va] ruína.”(9)

 

Será na sequência desta intervenção que surge a nova decoração pictórica ao gosto art déco, com motivos geométricos, da sala de espectáculos, datável de cerca de 1930, em tons pastel de cinzas, prateado e ocres-amarelados, que, sobre tela, revestiu o tecto e preencheu o friso estreito sob os camarotes, complementada, nas paredes, por friso largo, em ziguezague e triângulos, a azul.

 

Enquanto colectividade de bairro o Belém Clube contribuiu para a dinamização cultural local. Diversas placas evocam a actuação nesta sala de grandes figuras do palco luso-brasileiro: Auzenda de Oliveira e Sales Ribeiro (1923), Aldina de Sousa e Armando Vasconcelos (1923), Procópio Ferreira (1935), Mirita Casimiro (1939), Irene Isidro (1942), Adelina Abranches (1945), João Villaret (1951), Alzirinha Samargo, Tomás Alcaide, Luís Piçarra (1953), Bibi Ferreira (1961), Manuel dos Santos Carvalho (1961) e Maria Fernandes Soares (1964).

 

Pelo menos um dos programas da série Melodias de Sempre (1960-1969), apresentado por Jorge Alves, foi filmado no Belém Clube, e incluiu imagens da chegada das carruagens, pela calçada da Ajuda, com os espectadores trajados à época (10).

 

A plateia era amovível pelo que o espaço se convertia num salão de baile. Como curiosidade, no piso intermédio, frente ao bar, funcionava uma sala de jogo ilegal (11).

 

O edifício passou para posse da Câmara Municipal de Lisboa em 1967, através de uma permuta por um terreno municipal na Av. Estados Unidos da América, sendo à data seu proprietário Justino Soares Gonçalves. O município manteve o arrendamento ao Belém Clube até 2015, embora o espaço tivesse sido encerrado ao público, por razões de segurança, pela Inspeção Geral de Atividades Culturais três anos antes, e a colectividade foi transferida para as suas novas instalações na rua da Junqueira.

 

Na sequência de um concurso por convites lançado pela Lisboa Ocidental SRU – Sociedade de Reabilitação Urbana, E. E. M, em 2015, o projecto de restauro, requalificação e adaptação a um conjunto de valências contemporâneas (12), foi entregue à Contemporânea, Ldª (Arquitectos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira). Dado o mau estado de conservação geral do edifício, tratou-se de uma intervenção profunda, sobretudo na caixa de palco e zonas administrativas, mas que soube devolver à sala de espectáculos o esplendor passado da sua gramática oitocentista.

 

O renovado Teatro Luís de Camões, reabriu a 1 de junho de 2018 com a designação de LU.CA, especialmente direccionado para a programação infanto-juvenil.

 

António Miranda

 


Licenciado em História pela Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, possui ainda o Curso de Especialização em Ciências Documentais pela mesma instituição. Trabalha na Câmara Municipal de Lisboa desde 1991, onde desempenhou diversas funções na área patrimonial, das quais se destacam a sua colaboração nos gabinetes locais do Bairro Alto, Bica e Madragoa no âmbito da qual desenvolveu investigação histórica e iconográfica sobre a cidade, nomeadamente azulejaria, bem como a coordenação-geral do Museu de Lisboa. Colaborou como consultor histórico de diversos projectos e é ainda autor de diversas publicações na área de história da cidade de Lisboa.

 

 

Notas:

(1) Excerto de carta de Columbano para Henrique Lopes de Mendonça, 6/2/1881 – Biblioteca Nacional, Espólio da Família Lopes de Mendonça – citada por Margarida Elias in http://restosdecoleccao.blogspot.com/2016/11/teatro-luis-de-camoes.html, comentário. A paixão de Columbano por Camões, presente na grande maioria da sua pintura histórica, pode ser a justificação para a sua participação na pintura do pano de cena para o Teatro Luís de Camões.

 

(2) «Hoje é possível afirmar-se, cabalmente, tratar-se do antigo Teatro Real de Belém, edificado em 1737 a mando de D. João V e reformado em 1754/1756 por D. José I, sob traçado de Giovanni Carlo Bibiena. Contudo, a documentação existente não permite precisar o montante desta intervenção de Bibiena». In e-mail de Paulo Roberto Masseran (professor doutor arquitecto) enviado a 28 de outubro de 2016 à SRU Ocidental

 

(3) José Camões e Paulo Roberto Masseran, «Memórias desgarradas de um ínclito solar: o Teatro Real de Belém», Comunicação apresentada ao Colóquio Internacional Os espaços teatrais para a música na Europa do séc. XVIII, Org. Divino Sospiro – Centro de Estudos Musicais Setecentistas de Portugal (CEMSP), Palácio Nacional de Queluz, 30 Junho- 2 Julho, 2017. (No prelo)

 

(4) Idem

 

(5) Idem

 

(6) In recorte de notícia in http://restosdecoleccao.blogspot.com/2016/11/teatro-luis-de-camoes.html consultado em 31 agosto 2018. Blog de José Leite

 

(7) In RIBEIRO, Mário de Sampayo – A Calçada da Ajuda. Lisboa: ed. autor imp. Oficina de Inácio Pereira Rosa, Ldª, 1940, pág. 23

 

(8) Idem, ibidem

 

(9)  In Vol. Obra nº 4397 – Arquivo Municipal de Lisboa

 

(10) In Melodias de Sempre evocadas por Nuno Forte no programa especial intitulado O Dia de… Êxitos na TV, apresentado por Júlio Isidro, na RTP Memória em 24.9.2013. Disponível no Youtube.

 

(11) Testemunho oral de uma frequentadora anónimo do Belém Clube nas décadas de 1950-60

 

(12) In Memória descritiva do citado atelier de arquitectura Contemporânea