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Livros espetaculares (mesmo!) – Biblioteca do Amor e do Frágil

Sara Amado
Caixas empilhadas em torno de um televisor com caras desenhadas.

O que parece frágil é, às vezes, muito forte: um pássaro pequenino que tem força para percorrer muitos quilómetros, um pedaço de papel que, dobrado, sustenta um livro, algumas palavras, o amor.

Escolher cinco livros para a Biblioteca do Amor e do Frágil, uma biblioteca que (também) sirva a meninos bem pequeninos, foi como mexer num livro muito antigo e precioso. Primeiro, temos de pôr luvas.

Luvas para vasculhar livros improváveis, luvas para não estragar com palavras a mais o que uma imagem diz com mais força, luvas para escolher apenas cinco livros.

Os cinco livros desta Biblioteca do Amor e do Frágil são sobre pessoas e coisas. Falam de descoberta. Sim, também as coisas se descobrem, se desdobram e misturam, como as pessoas.

Há uma canção do Gilberto Gil e do Arnaldo Antunes que aqui deixo em forma de epílogo, para que depois não deixem os livros em paz:

 

As coisas têm

Peso, massa, volume

Tamanho, tempo

Forma, cor

Posição

Textura, duração

Densidade

Cheiro

Valor

Consistência

Profundidade, contorno

Temperatura, função

Aparência

Preço, destino, idade

Sentido

As coisas não têm paz

As coisas

 

 

 

 

O dia em que me tornei pássaro, Ed. The Poets and Dragons Society, Ingrid Chabbert e Guridi

 

Olha bem para as cores deste livro. São bonitas, não são? Poucas e um pouco tristes, mas mesmo bonitas. Em inglês, há uma expressão que se usa para estar melancólico (que é estar quase triste ou com saudades): estar com os azuis. Acho que são estes azuis.

Uma menina gosta de pássaros e um menino gosta da menina.

Para agradar à menina, o menino veste-se de pássaro. Há pássaros que estão em gaiolas, mas aqui o pássaro é que é a gaiola. Lá dentro, está preso o coração do menino.

O menino nunca vai conseguir ser mesmo um pássaro, não te parece? Mas, como ele próprio diz, pode chegar a voar!

 

 

 

Metade metade, Planeta Tangerina, Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso

 

Já ouviste falar em «cara-metade»? É um nome estranho e engraçado que damos à pessoa que parece que nos completa. Somos inteiros, claro, mas, quando estamos apaixonados, sentimo-nos incompletos sem a pessoa de que gostamos, como se nos faltasse uma peça do puzzle que somos nós. Por vezes, até nos sentimos meio mal-dispostos, meio perdidos, de coração partido.
Mas se estamos juntos, ah!, aí o puzzle completa-se, o corredor chega à meta, a bola chega à baliza, o sorriso chega-nos à cara — e ao coração inteiro!

 

 

O pior aniversário da minha vida, Ed. Orfeu Mini, Benjamim Chaud

 

Passamos meses à espera de que chegue o dia do nosso aniversário e parece que nunca mais chega. Entretanto, temos as festas dos nossos amigos, pelas quais também andamos desejosos. É tão bom ir a uma festa!

Mas nem sempre as coisas correm como esperamos. Principalmente, quando estivemos muito tempo a desejar alguma coisa. Principalmente, quando estamos apaixonados. E sentimo-nos ridículos, infelizes e muito sozinhos, com o coração destrambelhado, aos saltos, como um baloiço descontrolado.

Mas, quando voltamos a sentir o «coração, como um baloiço no peito» — dalim-dalão, dalim-dalão — até parece que ouvimos sinos e é tão bom!

 

 

Não é uma caixa, Ed. Presença, Antoinette Portis

 

Um dia, um pintor chamado Magritte pintou um cachimbo numa tela e, por baixo, escreveu «Ceci n’est pas uns pipe» — que é francês para «Isto não é um cachimbo». Bem, sabendo isto, talvez já não aches tão estranho o título deste livro. Mas se mesmo assim te parecer estranho, abre-o e vê por ti próprio: uma caixa não é (só) uma caixa. E depois experimenta pegar num caixote e imaginar que é um barco, uma torre, uma casa, um tesouro, o que quiseres. Achas que não dá?

Os caixotes parecem frágeis porque são feitos de cartão. Cartão é papel e o papel é frágil. Mas ensino-te outro nome, desta vez, japonês: Shigueru Ban. Este é o nome de um arquiteto que, desde há muitos anos, usa cartão para fazer casas, capelas, pavilhões. A sério! Por isso, atreve-te. O que parece frágil é, às vezes, muito forte.

Já reparaste nisso em algumas pessoas?

 

 

Trocoscópio, Ed. Planeta Tangerina, Bernardo Carvalho

 

«Às vezes as coisas gostam de ser outras coisas, por exemplo de serem como as pessoas. Gostam de se mexer, de rir, de gostar e de não gostar.»

Por exemplo, um quadrado e um triângulo podem querer ser uma casa; dois círculos e um triângulo, a cabeça de um pássaro; um retângulo e dois círculos, um autocarro. Muitos triângulos podem ser relva e algumas destas formas podem juntar-se porque querem ser um crocodilo.

Se abrires o livro, vais encontrar fábricas, chupa-chupas, escavadoras, flores. Coisas que vieram de outras coisas, de outras formas.

O Bernardo — que inventou este livro-máquina — fez saltar da página da esquerda (que estava vazia) para a página da direita (que se começou a encher) 142 figuras (geométricas) amarelas, verdes, encarnadas, azuis, rosas, laranja, roxas. E criou este jogo que podes continuar a jogar!