Voltar aonde somos felizes. E voltar a ouvir o mesmo – como as crianças gostam –, mas ser sempre diferente. Voltar e afirmar que há espetáculos que resistem ao tempo, obras que continuam a fazer sentido, a fazer-nos pensar, emocionar e crescer. E afirmar a relevância da sua existência, reconhecer que a qualidade artística não se esgota na estreia, mas se aprofunda a cada reencontro entre artistas e público. E afirmar que a criatividade não esta apenas na invenção do novo, mas também na arte de revisitar, reinterpretar e reencontrar sentido.
Onde tantas vezes se exige aceleração e reinvenção, olhar para o que já foi feito e reconhecer a forca de permanecer e um ato de sustentabilidade cultural. Cuidar dessas obras já criadas – e reprogramá-las – e valorizar a dedicação dos artistas e das equipas que constroem, com rigor e sensibilidade, obras capazes de inspirar novas gerações de espectadores e criadores – e e exatamente por isso que sobreviveram ao tempo.
Nas artes para a infância,” voltar aonde somos felizes” e um gesto de aprendizagem. As crianças aprendem por repetição e por descoberta. Voltar e uma oportunidade para sentir outra vez, reconhecer que a arte e um lugar que se pode visitar de novo e ser sempre novo. Transforma, acompanha o crescimento e promove um movimento entre o familiar e o novo, alimentando a construção de relações duradouras.
O tempo presente convida-nos a repensar a criação artística para crianças não apenas como espaço de entretenimento ou descoberta sensorial, mas como território de pensamento, de linguagem e de imaginação partilhada.
Esta proposta para escutar de novo tem a forma de um ciclo de programação, com reposições de uma seleção de coproduções realizadas ao longo de oito anos de atividade, e reflete um caminho partilhado entre criadores e o LU.CA – Teatro Luis de Camões. Com a intenção clara de proteger a vida dos projetos e fazer com que cheguem a mais crianças, fortalecendo a presença do teatro e das artes nas suas experiências de crescimento. As peças que estarão em cena, com carreiras que variam entre 9 e 25 sessões, integram o ciclo que decorrera ao longo de um ano, entre janeiro de 2026 e janeiro de 2027. São obras que nasceram da escuta do universo infantil e confiam na inteligência sensível das crianças.
Obras que continuam a falar connosco, e que queremos voltar a ver. Com elas cruzamos o espanto, a suspensão e a respiração que o teatro provoca, confiando que o que nos emocionou uma vez pode voltar a emocionar-nos, de outro modo. E isso no teatro e talvez a mais bonita forma de felicidade.
Susana Menezes,
Diretora Artística do LU.CA